Voltemos a setembro de 2007. Pouco se falava sobre o próximo disco do Radiohead. Mas tudo estaria resolvido em um mês. Tempo suficiente para a banda enlouquecer a indústria fonográfica e dominar o imaginário mundial.
Um misterioso site – www.radiohead7lp.com – continha uma contagem regressiva que levava a crer ser o sétimo disco do Radiohead. Entretanto, a própria banda negava ter ligação com a página. Até que o cronômetro finalmente chegou ao zero e revelou a seguinte frase: THE MOST GIGANTIC LYING HOAX OF ALL TIME (O MAIS GIGANTE E MENTIROSO BOATO DE TODOS OS TEMPOS, tudo em caixa alta mesmo), linkada a um vídeo do YouTube, que nos fazia cair no clipe de “Never Gonna Give You Up”, de Rick Astley. Mas ao mesmo tempo, o site oficial do grupo revelava a seguinte mensagem:
“Hello everyone.
Well, the new album is finished, and it’s coming out in 10 days;
We’ve called it In Rainbows.
Love from us all.
Jonny”
A partir desta mensagem, o internauta era direcionado ao site InRainbows.com. O suficiente para despertar as mais variadas reações mundo afora. Pela primeira vez na história uma banda entregava um novo trabalho e deixava a cargo dos fãs a decisão de escolher o quanto desejaria pagar. Até mesmo adquiri-lo de graça era possível. Quem quisesse, poderia pagar pela comodidade de receber, além das dez faixas disponibilizadas em formato MP3, um pacote com o disco em vinil em edição especial, que ainda incluía um disco extra.
Calibrando suas faixas com um bitrate específico (160 – ao contrário dos 320, 192 ou 128 que são usados como padrões), eles logo dominavam a rede com o mesmo disco em milhões de HDs diferentes. Driblando qualquer possibilidade de vazamento, In Rainbows chegou inteiro e exatamente como queriam seus autores. Em um fim de semana, o sétimo disco do Radiohead deixava de ser uma conspiração decodificada por fãs para se tornar um novo paradigma para a cultura pop.
In Rainbows transformou o Radiohead em novo paradigma digital. Não apenas o universo musical, mas todos conscientes do papel da internet ouviram falar da nova estratégia da banda, que em uma semana, teve mais de um milhão de downloads só do site oficial, dominou a parada da Last.fm e apresentou-se para gente que nunca tinha sequer parado para ouvir o grupo. Além de impulsionar uma safra de artistas a adotar o formato nos anos seguintes.
Produzido pelo parceiro de longa data Nigel Godrich, o Radiohead trabalhou em In Rainbows por mais de dois anos. Foi o primeiro trabalho dos britânicos após o fim do contrato com a gravadora EMI. Caso tivessem seguido o parâmetro linear de produção da era analógica – entregar o disco à gravadora, e não ao público -, talvez tivesse chegado apenas em março de 2008. Houve quem considerasse o lançamento digital do disco um híbrido improvável batizado de “vazamento oficial” – sem perceber a contradição no termo.
Para provocar ainda mais, a banda marcou o lançamento oficial do CD para o primeiro dia de 2008. Mas então qual seria o ano oficial de lançamento de In Rainbows? 2007 ou 2008? E para aguçar a polêmica, o Radiohead fechou um acordo para transmitir um show gravado no estúdio da banda no último dia de 2007. Poucas horas antes do disco chegar às prateleiras das lojas do mundo, milhares de fãs da banda em todo o planeta cantavam todas as músicas de um disco que ainda não existira fisicamente, apenas em forma digital.
Que outro grupo musical hoje em dia tem esse alcance? Quem mais conseguiria causar tamanha comoção ao lançar uma obra? É neste quesito que convém falar sobre a relevância, não da banda, mas da música pop ocidental em si. In Rainbows antes de qualquer comentário sobre sua sonoridade, composição, assume sua importância pela mudança de caráter que norteou a combalida indústria fonográfica. Mas o lado bom de toda essa história é que In Rainbows não é apenas um bom disco. Talvez seja o melhor álbum dos anos 2000.
Chamar o movimento que os britânicos fizeram há dez anos de “revolucionário” nada mais é do que o passo natural de um grupo que discutiu relações humanas da pós-modernidade em OK Computer (1997) e teve com Kid A (2000) o primeiro disco a “vazar” inteiro na rede. Esse maior alcance aponta de forma mais visível a força do Radiohead em se lançar como a banda mais influente em atividade hoje.
O post Há dez anos, o Radiohead enlouquecia a indústria fonográfica ao lançar “In Rainbows” apenas em formato digital apareceu primeiro em Portal ROCKline | É só rock'n'roll!!!.
Fonte: http://ift.tt/2wLUAhd


Pedro
Posted in:
0 comentários:
Postar um comentário