Desert Trip: Saiba tudo que rolou no “festival do século”

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Um fim de semana sem precedentes. O Desert Trip, tido como o “festival do século”, reuniu em três dias seis das maiores lendas vivas da música. Bob Dylan, Rolling Stones, Neil Young, Paul McCartney, Roger Waters e The Who tocaram para mais de 220 mil pessoas no deserto de Indio, Califórnia. Se para muitos sobrou música da maior qualidade, para outros faltou lama e topless. Sinal dos tempos?

O casal Ronald Whitecross e Beth Ted Kirchheer estiveram entre as 500 mil pessoas que participaram do lendário festival Woodstock durante um fim de semana no interior do estado de Nova York. Nomes como Jimi Hendrix, Joe Cocker, Santana, The Who e Janis Joplin se apresentaram em meio a chuvas e lama. “Aqui não tem lama ou sexo. É tudo elegante, lindo e há um certo moralismo por parte do público. Em Woodstock prevalecia o senso de irmandade.”

De fato, o Desert Trip tenta seguir as normas de um grande evento contemporâneo. Infraestrutura (quase) impecável e a experiência de passar um dia no festival além dos shows. Mas, como toda novidade, houve problemas. O calor desértico foi o menor dos problemas. Mas a sete horas do início dos shows, o engarrafamento foi sentido a mais de 30km. Pessoas que compraram os ingressos mais caros tiveram que retirar as pulseiras VIP a 10km do local do evento, o que fez que muitos perdessem o início dos shows. E a falta de informações no local foi outro grande problema.

bob-dylanMas como o que interessa é música, vamos falar do mais importante. Bob Dylan foi o primeiro a subir ao palco na sexta-feira (7). O cantor, avesso a grandes badalações, irrompeu a música ambiente que rolava e deu início à apresentação de 80 minutos com “Rainy Day Women #12 and 35”. Sem falar com a plateia, Dylan emendou outros três clássicos: “Don’t Think Twice, It’s All Right”, “Highway 61 Revisited”, “It’s All Over Now, Baby Blue”. O telão que adornava o palco era da estrutura de show do Roger Waters, mas a curiosidade ficou por conta dos closes utilizados durante a performance de Dylan. Praticamente a câmera não focava no cantor, visto várias vezes como um borrão, e majoritariamente filmado de cima, com destaque para seu grande chapéu. Com Paul McCartney vibrando na plateia ao som de “Desolation Row”, não dá pra dizer que Dylan “sabotou” seu setlist, como costuma fazer, mas omitiu “Like A Rolling Stone”. Em suma, uma apresentação contemplativa, onde mais tocou piano que guitarra e que teve (poucos) momentos descontraídos, o cantor chegou a arriscar alguns passos de dança no palco para a surpresa dos fãs.

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A sensação de que o festival começou pra valer veio quando os Rolling Stones surgiram no palco. Keith Richards arrancou com o riff de “Start Me Up” e enfim fez o público explodir de vez. Ainda na parte inicial, a banda apresentou “Ride ‘Em on Down”, cover de Jimmy Reed, que estará em “Blue & Lonesome”, novo álbum prometido para dezembro. Logo na sequência, resgataram “Mixed Emotions”, que não era apresentada desde 1990. Um espirituoso Mick Jagger fez piada consigo mesmo (“Bem-vindos ao Retiro de Palm Springs para músicos ingleses gentis”) e surpreendeu a todos ao anunciar uma surpresa para um dos astros do festival (lembram de Paul McCartney na plateia de Bob Dylan?). Pois é: os Stones tocaram uma versão inédita de “Come Together”, dos Beatles. De negativo, apenas o momento solo de Keith Richards, que desafinou muito em “Slipping Away”, bem como errou algumas entradas. Quem anda se desdobrando na guitarra mesmo é Ronnie Wood. Contudo, foi um set irrepreensível de clássicos: “Honk Tonky Women”, “Miss You”, “Gimme Shelter”, “Sympathy For The Devil”, “Jumping Jack Flash”, e claro, “(I Can’t Get No) Satisfaction” – para a satisfação geral do público na primeira noite.

Nenhuma outra geração está tão intimamente associada com o ativismo social liberal quanto a que esteve em Woodstock. Por isso foi uma surpresa que a primeira noite do Desert Trip passou sem uma declaração política pulmonar (salvo, sem dúvidas, a execução de “Masters of War” por Bob Dylan). Mas Neil Young fez o favor de ajustar as contas no início da noite de sábado (8), colocando no palco tendas indígenas com a inscrição “Água é vida”, em apoio aos nativos da comunidade Standing Rock, em Dakota do Norte, contra um oleoduto que ameaça a pureza das águas. De quebra, atacou Donald Trump diversas vezes durante seu set. Chegou a fazer uma piada com o álbum “The Wall”, do Pink Floyd, que tocaria na última noite: “Volte amanhã à noite. Roger vai construir um muro e fazer o México grande novamente”. Mas nem todo mundo ficou satisfeito. Alguns membros da plateia gritavam para que Young parasse de “pregar” e tocasse música. E o canadense não deixou por menos e entregou energia e emoção em faixas como “After the Gold Rush”, “Heart of Gold”, “Harvest Moon”, “Down By the River” com seus extensos 22 minutos e, claro, “Rockin’ In The Free World”, que ganhou um verso adicional. Apesar de tudo, ficou a impressão de que a balança entre música e política ficou um pouco defasada.

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E quem acompanhava o show de Paul McCartney e imaginou que o ex-beatle não apresentaria surpresas em seu set, se enganou. Aos 74 anos, a vitalidade do músico é de se admirar – seja nas cortantes “A Hard Day’s Night”, “Jet” ou “Day Tripper”, seja nas emotivas “My Valentine”, “Maybe I’m Amazed” ou “Let Me Roll It” (com direito à citação de Jimi Hendrix com “Foxy Lady”). Como era de se esperar, o setlist equilibrou-se entre hits e preferidas dos Beatles, Wings e de sua fase solo. Entre as surpresas, rolou “In Spite of All the Danger”, uma das primeiras demos dos Beatles, “Love Me Do” (dedicada ao produtor dos Beatles, George Martin, que faleceu recentemente), e claro, a volta de Neil Young ao palco para três músicas: “A Day In the Life”, “Give Peace a Chance” (de John Lennon) e “Why Don’t We Do It in the Road”, faixa do famoso “Álbum Branco” (1968) que foi tocada ao vivo pela primeira vez. E se os Rolling Stones tocaram “Come Together” na noite anterior, Macca devolveu a gentileza ao tocar “I Wanna Be Your Man”, que ele e Lennon compuseram para a banda. Foram duas horas e meia de show até o grand finale com a suíte “Golden Slumbers”, “Carry That Weight” e “The End”, do álbum “Abbey Road” (1969).

the-whoE a noite de domingo começou com o The Who, que fez um show relativamente curto para seus padrões. Em pouco menos de duas horas, Roger Daltrey e Pete Townshead desfilaram hits e mais hits de mais de 50 anos de carreira. “Nós amamos que vocês vieram nos ver” disse ele, dedicando “The Kids Are Alright” para os “jovens” na plateia. Em outro momento, antes de “I Can See For Miles”, Daltrey lembrou ao público que este havia sido o primeiro hit da banda britânica nos Estados Unidos, em 1967. “Há muito tempo atrás, nós éramos a versão de 1967 da Adele ou da Lady Gaga ou da Rihanna ou do Bieber”. A dupla mantém as características que desenvolveram no palco, como o de rodar o microfone pelo fio ou girar o braço em 360º enquanto esmerilha a guitarra. Mas se prepara para encerrar as atividades sob o nome The Who. Mas antes disso, entregou ao público do Desert Trip clássicos como “My Generation”, “Baba O’Riley”, “Pinball Wizard” e “You Better You Bet”.

roger-watersSem meias palavras e sem meias imagens, Roger Waters entregou tudo aquilo que Neil Young previra na noite anterior. Seu palco serviu como palanque contra o candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. Diversas montagens com o rosto do milionário surgiram nos telões, além de mensagens pesadas como “Trump é um porco”, que fazia a plateia urrar. Durante “Another Brick In The Wall Pt.2”, crianças mexicanas apareceram no palco com o dizeres “Abaixe o muro” em suas camisetas, uma referência ao muro que Trump disse querer construir na fronteira dos Estados Unidos com o México, em um ato de xenofobia. Com um setlist que priorizou os hits dos álbuns “Dark Side of the Moon” (1973), “Wish You Were Here” (1975) e “The Wall” (1979), um dos momentos mais marcantes foi a presença de um jovem americano — mas veterano de guerra, que perdeu as pernas em uma batalha — para tocar guitarra com a banda em “Shine On You Crazy Diamond”. Definitivamente, música é um instrumento político.

As seis apresentações voltam a acontecer no próximo fim de semana, nos dias 14,15 e 16 de outubro.


Fonte: http://ift.tt/2e0k0n2

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